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Enviada
24/102011
Este
artigo foi extraído da intervenção feita pelo autor
no Seminário Internacional Mudanças Climáticas
- 11 e 12 de novembro de 2010 - Brasília
Mundialmente falando
o movimento pela reforma urbana tem longa tradição na
luta pela preservação do meio ambiente, já deu
grandes contribuições na reflexão política
deste complexo tema, compreende a luta pelo direito a cidade e ao meio
ambiente como luta de caráter democrático, o movimento
urbano progressista compreende a importância desta luta com o
mesmo grau de compreensão da luta pela paz e contra a guerra
desenvolvida pelos povos há anos, por entender a natureza estratégica
da luta pela autodeterminação dos povos, a luta pela preservação
do meio ambiente, pelo direito a cidade e a soberania das nações
deve ser compreendida como luta de todos os atores sociais que realmente
entendem a importância dessas lutas, sua dimensão política
e seu conteúdo humanitário.
Segundo levantamento da ONU, entre 1970 e 2010 a população
urbana do planeta aumentou em 2, 177 bilhões de pessoas. Isso
implica dizer que o mundo passou a ter uma cidade de 54 milhões
de habitantes a cada ano. Se levarmos em consideração
que as cidades se desenvolveram sem o planejamento na ocupação
do espaço urbano podemos afirmar que as populações
urbanas vivem realmente com grandes dificuldades de sobrevivência
que reflete diretamente na qualidade de vida. Este fato tem relação
direta com a preservação do meio ambiente e a qualidade
de vida no planeta.
Se observarmos hoje
as cidades que estão na periferia do sistema capitalista chegamos
à preocupante conclusão que 1,29 bilhões de pessoas
estão vivendo em situação de risco social, em condições
insalubres e desumanas. Esse é um problema presente nas cidades
de todos os países do mundo e por esta razão não
podemos descolar esse debate da luta do meio ambiente da luta pelo progresso
social. Embora tardio o debate do meio ambiente chega ao campo da esquerda
gerando a expectativa que esta discussão eleve seu patamar, debate
democrático e responsável num tema estratégico
ao desenvolvimento, a soberania das nações e a vida no
planeta, estabelecer o diálogo com amplos setores da nossa sociedade
sobre esta temática em debate em várias partes do mundo
é discutir em alto nível as conseqüências do
desenvolvimento predatório do sistema capitalista na atualidade,
esta é uma tarefa urgente, é concretamente defender a
vida no planeta.
Por ser o capitalismo o sistema predatório, no qual a maioria
esmagadora da humanidade é tratada como mera mercadoria e isto
comprovamos ao andar pelas cidades e constatar a degradação
da vida humana. A deterioração é presente e angustiante
nas cidades. Hoje, um bilhão de seres humanos vive na periferia
do sistema sem saneamento, sem transporte adequado, sem orientação
pedagógica, sem moradia digna, sem saber como tratar os resíduos
sólidos, sem entender a importância da preservação
das nascentes, sem a clareza e a compreensão de que é
importante preservarmos o ambiente em que vivemos.
A grande migração
do campo para as cidades nos últimos 30 anos resultou nos grandes
conglomerados humanos gerando degradação social, hoje
82% da população brasileira vive amontoada nas cidades
sem infraestrutura que garanta uma vida digna, esta concentração
humana se deu devido à grande “oferta” de emprego num determinado
período histórico, da necessidade das pessoas melhorarem
de vida. Mas as cidades não estavam preparadas para receber milhões
de pessoas num curto espaço de tempo, as cidades se propuseram
apenas a oferecer emprego, não propuseram a garantir moradias
digna, escolas, água encanada, saneamento, reciclagem do lixo,
o tratamento dos resíduos sólidos, etc. Com a ausência
desses elementos e de uma consciência coletiva de preservação
ambiental a qualidade de vida nas cidades se tornou muito precária.
O que a CONAM está
fazendo concretamente em relação a essa temática.
Nossa entidade, ao longo de sua de existência vêm fazendo
debates pela Reforma Urbana e certamente vem incluindo nessa discussão
a questão ambiental. O movimento pela reforma urbana consequente
não debate o saneamento básico por debater como tradicionalmente
a maioria faz. A visão de saneamento para a Conam é muito
mais ampla. Exige uma reflexão mais profunda do assunto, exige
uma compreensão muito maior do que é esgoto, água
tratada e resíduos sólidos. É um conjunto de ações
de preservação ambiental tendo como pressuposto elevação
da qualidade de saúde e de vida do povo.
Ao longo desse tempo, inclusive no último congresso de nossa
entidade, fizemos este debate com aproximadamente 20 mil associações
filiadas – que em média reuniram dez dirigentes por plenária,
à defesa do meio ambiente foi debatido com aproximadamente 180
mil pessoas neste processo. Em todos os debates, colocamos a questão
do meio ambiente como central a vida no planeta e a soberania do país.
Este tema deve continuar na agenda de luta do povo brasileiro por muito
tempo.
Não podemos
enquanto movimento social falar apenas para nós mesmos. Precisamos
falar com o povo e para o povo. Porque a partir daí passamos
a ter condições de desenvolver campanhas, organizar jornadas
e contribuir efetivamente com a educação ambiental que
garanta a preservação do meio ambiente e a vida do planeta,
por sua dimensão esta luta não pode ser entendida como
obra de poucos iluminados, ela é tarefa de milhões de
pessoas.
Precisamos levar em consideração que há 297 mil
ONGs operando no território nacional, e dessa totalidade 170
mil atua na região da Amazônia, maioria esmagadora destas
o serviço do capital financeiro internacional, com destaque ao
japonês, o europeu com muita presença do francês,
belga, alemão, e também do norte-americano e do canadense.
A grande tarefa destas é impedir a entrada, a participação
e a intervenção do Estado nos assuntos de interesse do
povo brasileiro nesta região.
Ao defender a luta ambiental não analisamos a questão
do meio ambiente sob uma visão preservacionista, preservar por
preservar. Achamos que temos de fazer a preservação do
meio ambiente, o grande debate em questão é combinar a
preservação do meio ambiente com a necessidade de fazer
o desenvolvimento econômico e social do Brasil também nessa
região. Não podemos – a pretexto de uma visão santuarista
– achar que só preservar a flora e a fauna basta, é preciso
preservá-las, mas é urgente desenvolver a região
com a presença do estado Brasileiro através de investimentos
em políticas públicas.
Temos garantir a defesa das riquezas que estão no subsolo nacional.
E isso não pode ocorrer sem a verdadeira presença do Estado
brasileiro. A degradação do meio ambiente e o saque das
nossas riquezas podem acontecer devido à presença dominante
de ONGs a serviço dos interesses internacionais, há lugares
na região amazônica que elas estão implantadas que
um general do exército brasileiro, ou outra autoridade da república
é proibido de colocar os pés, o cidadão brasileiro
comum não pode fazer visitação. Ha confirmação
que na maioria desses lugares só se falam dois idiomas, o local
indígena, o inglês, o francês ou outra língua
estrangeira. Não se fala português, esta é uma estratégica
do imperialismo no sentido de evitar e dificultar mesmo o contato com
o que é do Brasil.
Tudo isso tem a ver com a luta na defesa do meio ambiente. Por exemplo,
alguém se desloca de Macapá até Laranjal do Jarí,
percorre 280 quilômetros de terra de chão e vê a
parte que está preservada, onde o Estado se faz presente, e a
parte que está degradada ambientalmente e culturalmente pela
ação criminosa de ONGs ligadas aos interesses do capital
financeiro internacional e do imperialismo americano. Por isso, essa
deve ser também uma grande preocupação de todos
nós que lutamos pela preservação do meio ambiente,
desenvolver econômica e socialmente estas localidades eleva a
qualidade de vida da população e fortalece a presença
do estado Brasileiro nesta região.
Outra questão relevante é a ocupação desordenada
do espaço urbano, e isso leva a uma degradação
ainda muito mais rápida do meio ambiente. Por exemplo, os rios
das grandes cidades são todos sem vida, todos eles sem nada,
a não ser dejetos, água sem vida. Se tivéssemos
uma política de saneamento básico que coletasse e tratasse
os esgotos, se além das estações de tratamento
tivéssemos troncos coletores de tratamento certamente o ramal
dos Córregos, os pequenos e grandes rios não receberiam
o esgoto cru certamente a situação atual seria diferente,
teríamos rios saudáveis.
O grande investimento
em políticas pública na atualidade é o investimento
na preservação do meio ambiente e na ocupação
ordenada do espaço urbano. A questão é de política
pública e do papel do estado, neste sentido nosso país
precisa se apoderar cada vez mais desse assunto de natureza estratégica
que é a preservação do meio ambiente, a ocupação
do espaço urbano como elementos que garantem a qualidade de vida
do povo.
Há exemplos recentes dessa ocupação em dois estados:
Santa Catarina e Rio de Janeiro, palcos de grandes tragédias
ambientais e humanas. A ocupação desordenada e a degradação
localizada do meio ambiente não resistiram à manifestação
da natureza. No caso as chuvas, toda a tragédia foi noticiada
pelos meios de comunicação. Mas isso não é
algo reservado só ao Brasil. Em países da Ásia,
África, no Haiti recentemente, ocorreram coisas no mesmo sentido.
Esses acontecimentos reforçam que na periferia do sistema é
o “salve-se quem puder”. Por exemplo, São Paulo. O ambiente onde
vivem os moradores do Jardim São Luís na Zona Sul e, na
mesma região, onde vivem as pessoas que moram no Jardim Europa,
onde reside Paulo Maluf e outros representantes das elites. As pessoas
vão ver realmente que a questão do meio ambiente para
Maluf é secundária, não há preocupação
central em relação a isso porque ele conta com toda a
infraestrutura garantida pelo estado por meio de políticas públicas.
Ele sabe que ali não haverá enchente, deslizamentos, que
o lixo não vai para a rua e os bueros, não vai poluir
o rio, ali há todas as garantias mínimas para uma qualidade
de vida elevada e saudável.
Isso, sem falar na questão do transporte nas grandes cidades.
Quando falamos de transporte falamos do transporte individual – porque
as cidades foram desenvolvidas com essa premissa. No caso dos transportes
coletivos nas grandes cidades, além de poluírem, aquecem
as cidades e comprometem a qualidade de vida dos seus habitantes.
Portanto, mais do
que nunca, se faz necessário levarmos em consideração
a questão do transporte de massa. Além, no caso, de um
investimento maior para poder diminuir o transporte individualizado.
O transporte individualizado não resolve, pelo contrário,
só dificulta e diminui a qualidade de vida das pessoas nas cidades.
É importante reafirmar que há necessidade de aumentar
os investimentos em todas as políticas públicas. Quando
falamos de todas as políticas públicas falamos das políticas
transversalizadas – diretamente relacionadas às questões
de meio ambiente, à política direcionada à questão
de infraestrutura das cidades como transporte, saúde, educação,
moradia etc.
Outro elemento importante é que o desenvolvimento econômico
e social precisa ser compreendido por outros atores sociais que estão
distantes desse debate, porque quando falamos em desenvolver ainda mais
as forças produtivas, desenvolver ainda mais a sociedade e por
meio desse desenvolvimento garantir a qualidade de vida em todos os
sentidos para as populações, quando falamos de desenvolvimento
sustentável pensamos na combinação do desenvolvimento
econômico combinado com a preservação do meio ambiente,
esta combinação assegura a qualidade de vida do povo,
qualidade de vida com o uso racional dos recursos naturais que estão
colocados a nossa disposição.
Por exemplo, nos últimos 200 anos, a forma acelerada de fazer
acumulação de capital fez com que a vida no planeta fosse
colocada em xeque no sentido de que vale tudo pelo lucro fácil,
vale tudo na busca da acumulação do capital. Portanto
entendemos enquanto militantes da reforma urbana que é preciso
construir outro mundo, construir outro tipo de relações.
É necessário haver outras formas de relação
humana, da distribuição da riqueza, da apropriação
e da exploração desta riqueza para o bem comum.
É muito recente no Brasil a cultura de se fazer a reciclagem
do lixo. Acho que essa é uma sinalização muito
positiva no sentido de que a educação ambiental é
muito importante na preservação do ambiente em que vivemos.
Nesse sentido a Conam, o movimento comunitário e suas filiadas
vem realizando nos últimos anos oficinas, encontros e seminários
para discutir essa temática e trazer nossa contribuição
a este debate por entender que colocar opinião nesse assunto
de altíssima relevância humana é obrigação
de todos os militantes dos movimentos sociais minimamente lúcidos,
comprometidos com um ambiente saudável e com a soberania nacional.
Wanderley
Gomes da Silva
Membro do conselho do Instituto Nacional do meio Ambiente - INMA
Membro do conselho Nacional de Saúde - CNS
Diretor da Confederação Nacional das Associações
de Moradores - CONAM

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