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17/02/2010 José Saramago O Nobel português rememora outro terremoto: aquele que arrasou Lisboa em 175. E garante que, como ocorreu com a capital Lusa, o Haiti será reconstruído. A questão é: como se reconstruirá a comunidade de seu povo? O artigo de José Saramago está publicado no seu blog O Caderno de Saramago, 08-12-2010. Eis o artigo. No
Dia de Todos os Santos de 1755 Lisboa foi Haiti. A terra tremeu quando
faltavam poucos minutos para as dez da manhã. As igrejas estavam
repletas de fiéis, os sermões e as missas no auge… Depois
do primeiro abalo, cuja magnitude os geólogos calculam hoje ter
atingido o grau 9 na escala de Richter, as réplicas, também
elas de grande potência destrutiva, prolongaram-se pela eternidade
de duas horas e meia, deixando 85% das construções da
cidade reduzidas a escombros. Segundo
testemunhos da época, a altura da vaga do tsunami resultante
do sismo foi de vinte metros, causando 600 vítimas mortais entre
a multidão que havia sido atraída pelo insólito
espectáculo do fundo do rio juncado de destroços dos navios
ali afundados ao longo do tempo. Os
incêndios durariam cinco dias. Os grandes edifícios, palácios,
conventos, recheados de riquezas artísticas, bibliotecas, galerias
de pinturas, o teatro da ópera recentemente inaugurado, que,
melhor ou pior, haviam aguentado os primeiros embates do terremoto,
foram devorados pelo fogo. Dos
275 mil habitantes que Lisboa tinha então, crê-se que morreram
90 mil. Conta-se que à pergunta inevitável “E agora, que
fazer?”, o secretário de Estrangeiros Sebastião José
de Carvalho e Melo, que mais tarde viria a ser nomeado primeiro-ministro,
teria respondido “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. Estas
palavras, que logo entraram na História, foram efetivamente pronunciadas,
mas não por ele. Disse-as um oficial superior do exército,
desta maneira espoliado do seu haver, como tantas vezes acontece, em
favor de alguém mais poderoso. Lisboa
foi reconstruída, o Haiti também o será. A questão,
no que toca ao Haiti, reside em como se há-de reconstruir eficazmente
a comunidade do seu povo, reduzido não só à mais
extrema das pobrezas como historicamente alheio a um sentimento de consciência
nacional que lhe permitisse alcançar por si mesmo, com tempo
e com trabalho, um grau razoável de homogeneidade social. De
todo o mundo, de distintas proveniências, milhões e milhões
de euros e de dólares estão sendo encaminhados para o
Haiti. Os
abastecimentos começaram a chegar a uma ilha onde tudo faltava,
fosse porque se perdeu no terremoto, fosse porque nunca lá existiu.
Como por ação de uma divindade particular, os bairros
ricos, em comparação com o resto da cidade de Porto Príncipe,
foram pouco afectados pelo sismo. Diz-se,
e à vista do que aconteceu no Haiti parece certo, que os desígnios
de Deus são inescrutáveis. Em Lisboa as orações
dos fiéis não puderam impedir que o teto e os muros das
igrejas lhes caíssem em cima e os esmagassem. No
Haiti, nem mesmo a simples gratidão por haverem salvo vidas e
bens sem nada terem feito para isso, moveu os corações
dos ricos a acudir à desgraça de milhões de homens
e mulheres que não podem sequer presumir do nome unificador de
compatriotas porque pertencem ao mais ínfimo da escala social,
aos não-ser, aos vivos que sempre estiveram mortos porque a vida
plena lhes foi negada, escravos que foram de senhores, escravos que
são da necessidade. Não
há notícia de que um único haitiano rico tenha
aberto os cordões ou aliviado as suas contas bancárias
para socorrer os sinistrados. O coração do rico é
a chave do seu cofre-forte. Haverá
outros terremotos, outras inundações, outras catástrofes
dessas a que chamamos naturais. Temos aí o aquecimento global
com as suas secas e as suas inundações, as emissões
de CO2 que só forçados pela opinião pública
os governos se resignarão a reduzir, e talvez tenhamos já
no horizonte algo em que parece ninguém querer pensar, a possibilidade
de uma coincidência dos fenômenos causados pelo aquecimento
com a aproximação de uma nova era glacial que cobriria
de gelo metade da Europa e agora estaria dando os primeiros e ainda
benignos sinais. Não
será para amanhã, podemos viver e morrer tranquilos. Mas,
di-lo quem sabe, as sete eras glaciais por que o planeta passou até
hoje não foram as únicas, outras haverá. Entretanto,
olhemos para este Haiti e para os outros mil Haitis que existem no mundo,
não só para aqueles que praticamente estão sentados
em cima de instáveis falhas tectônicas para as quais não
se vê solução possível, mas também
para os que vivem no fio da navalha da fome, da falta de assistência
sanitária, da ausência de uma instrução pública
satisfatória, onde os fatores propícios ao desenvolvimento
são praticamente nulos e os conflitos armados, as guerras entre
etnias separadas por diferenças religiosas ou por rancores históricos
cuja origem acabou por se perder da memória em muitos casos,
mas que os interesses de agora se obstinam em alimentar. O
antigo colonialismo não desapareceu, multiplicou-se numa diversidade
de versões locais, e não são poucos os casos em
que os seus herdeiros imediatos foram as próprias elites locais,
antigos guerrilheiros transformados em novos exploradores do seu povo,
a mesma cobiça, a crueldade de sempre. Esses
são os Haitis que há que salvar. Há quem diga que
a crise econômica veio corrigir o rumo suicida da humanidade.
Não estou muito certo disso, mas ao menos que a lição
do Haiti possa aproveitar-nos a todos. Os
mortos de Porto Príncipe foram fazer companhia aos mortos de
Lisboa. Já não podemos fazer nada por eles. Agora, como
sempre, a nossa obrigação é cuidar dos vivos. |
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