Matéria publicada no Correio Braziliense do dia 13/09/2005
 
Habitação
Caminhada pela casa própria

Oito mil pessoas andam duas horas, no centro de Taguatinga à residência do governador, em Águas Claras, para pedir lotes para a construção de moradias populares. Roriz promete área no Catetinho.

Helena Mader
Da equipe do Correio

As entidades de luta pela moradia conseguiram ontem uma grande vitória. Mais de oito mil pessoas marcharam durante toda a manhã em direção à residência oficial do governador, em Águas Claras, para entregar uma extensa lista de reivindicações. Depois do protesto, Joaquim Roriz reuniu-se com representantes dos movimentos sociais e prometeu destinar novas áreas para a produção de moradia popular. O governador garantiu ainda que vai dar autonomia para que as cooperativas habitacionais organizem a venda dos lotes à população de baixa renda.

A principal reivindicação dos manifestantes era que o Governo do Distrito Federal (GDF) destinasse parte do Setor Habitacional Catetinho, próximo ao Gama, às entidades de luta pela moradia popular. O novo bairro, que deve abrigar cerca de 40 mil pessoas, foi planejado para abrigar apenas habitações para a classe média. Roriz disse que vai destinar um percentual da região às cooperativas, mas não definiu o tamanho da área.

A marcha da Coalizão pela Moradia Popular, entidade que reúne 17 associações e cooperativas habitacionais, começou às 9h, no centro de Taguatinga. Uniformizados com camisetas laranjas e carregando faixas com as reivindicações, os manifestantes caminharam até a residência oficial, onde chegaram por volta de 11h. O protesto complicou o trânsito na Estrada Parque Taguatinga (EPTG) e o tráfego de veículos ficou lento durante toda a marcha. Os participantes do evento ocuparam uma das três faixas de rolamento da via e depois se concentraram no gramado em frente à residência do governador.

O calor não desanimou os manifestantes, que usaram faixas e guarda-chuvas para se proteger do sol forte. Muita gente chegou cedo à concentração da marcha para lutar pela casa própria. A comerciária mineira Terezinha Ramos, de 40 anos, mora em Brasília desde 1978. Desde que chegou a cidade, ela paga aluguel de uma casa simples, em Ceilândia. “Nunca consegui comprar meu imóvel e com o que eu ganho, é muito difícil pagar aluguel. Já me inscrevi em cooperativa, já fui para a rua protestar, mas até agora nada”, reclama a comerciária, que foi à marcha ao lado da amiga Conceição Fernandes.

A dona-de-casa Cláudia Mary Pimenta, de 29 anos, levou os três filhos para o protesto. Ela levantou faixas, gritou e seguiu o carro de som. Só parava para amamentar a filha caçula, de apenas um ano. “Moro de aluguel há dez anos em Santa Maria. Preciso de um teto para criar meus filhos com dignidade”, justifica.

Encontro
Os representantes das 17 entidades foram recebidos às 13h30 pelo governador Joaquim Roriz.

Participaram do encontro também a vice-governadora Maria de Lourdes Abadia, a secretária de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Diana Meirelles, o secretário da Agência de Infra-Estrutura, Tadeu Filippelli, e a deputada distrital Ivelise Longhi, que é ex-secretária de Habitação. As lideranças comunitárias leram as reivindicações às autoridades e pediram que o governador invista em infra-estrutura para urbanizar o Riacho Fundo II.

A cidade tem capacidade para receber mais de 5 mil famílias, em uma área do governo federal. Um convênio de cooperação técnica assinado na semana passada por representantes dos governos local e federal destina a área para a criação de moradia popular. A secretária de Patrimônio da União, Alexandra Reschke, juntou-se aos manifestantes e explicou a todos que um comitê técnico vai definir como será o novo bairro. “É preciso elaborar um plano urbanístico para definir como será a ocupação do Riacho Fundo II. A união da população em cooperativas habitacionais é a melhor forma de oferecer moradia e dignidade a essas pessoas”, defendeu Reschke.

O governador Joaquim Roriz disse que sua maior preocupação é com os critérios usados pelas cooperativas para aceitar associados e distribuir os lotes. Ele teme que a venda de novas áreas para a produção de moradia popular atraia novos migrantes para a cidade. “Se a gente entrega mil lotes, vêm mais duas mil pessoas para Brasília. É preciso que as entidades usem critérios rigorosos na entrega dos imóveis”, defendeu o governador.

Política habitacional
A secretária de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Diana Meirelles, lembrou que o governo lançou um edital em março deste ano, que ofereceu 1,6 mil lotes no Recanto das Emas e na Cidade Ocidental (GO) para as cooperativas habitacionais. “Inovamos ao incluir o Entorno em nossa política habitacional. Estamos finalizando um novo edital, que será lançado em, no máximo, dois meses”, explicou a secretária.
A Coalizão pela Moradia Popular reúne cerca de 60 mil pessoas. O déficit habitacional do Distrito Federal é de cerca de 80 mil moradias. As entidades reunidas na coalizão ficaram satisfeitas com o encontro. “Mas queremos agora que o governo invista em infra-estrutura no Riacho Fundo II e libere novas áreas em Samambaia Oeste, Guará e Recanto das Emas”, defendeu Risomar Carvalho, da Coalizão pela Moradia Popular e Diretor da CONAM.


O número
Carência - No DF, faltam
80 mil
moradias para a população de baixa renda

Risomar Carvalho
8413-5360