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O DESAFIO DOS PLANOS DIRETORES PARTICIPATIVOS
Tarson
Núñez *
Álvaro “Cabeça” Correia **
A aproximação da Conferência das Cidades amplia
nossa responsabilidade no sentido de pensar a intervenção
dos movimentos sociais nos debates sobre política urbana no
Brasil. Os movimentos sociais, articulados através da FNRU,
da CONAM, da CMP, do MNLM e da União cumpriram um papel decisivo
na afirmação do direito à cidade em nosso país.
Os avanços obtidos nos últimos anos, especialmente a
partir da criação do Ministério das Cidades,
representaram um grande e novo desafio aos movimentos sociais. Depois
de décadas de luta, onde os movimentos sociais conseguiram
construir e consolidar uma plataforma política consistente
que se materializou na aprovação do Estatuto das Cidades,
o momento agora é de dar um salto de qualidade.
Estes avanços institucionais hoje se materializam no processo
de discussão sobre os Planos Diretores. Em todo o Brasil, nas
cidades com mais de 20.000 habitantes, foi desencadeado o debate para
a elaboração dos planos, ou sua reformulação,
quando já existirem. O Governo Federal, através do Ministério,
vem estimulando este debate, financiando os processos participativos
de discussão e capacitando gestores públicos em centenas
de fóruns, seminários, oficinas onde a sociedade, as
prefeituras, associações profissionais e representações
dos movimentos sociais vem discutindo este instrumento central da
política de desenvolvimento urbano que são os planos
diretores.
Há hoje no Brasil toda uma mobilização que envolve
parcerias entre prefeituras, instituições universitárias
e de planejamento, órgãos de pesquisas, associações
profissionais e representações dos movimentos sociais
em uma inédita discussão sobre as políticas urbanas.
Nunca se discutiu tanto, e de forma tão participativa, as políticas
urbanas em nosso país, como agora com a Campanha dos Planos
Diretores Participativos.
Todo este avanço, no entanto, não nos impede de identificar
alguns limites na intervenção dos movimentos sociais
em uma conjuntura tão rica. É fundamental reconhecer
que a complexidade do desafio de discutir os Planos Diretores por
vezes se encontra além do acúmulo existente em termos
de discussão entre os ativistas dos movimentos sociais de muitas
das cidades envolvidas no processo. E dada a complexidade do processo,
e a quantidade de questões jurídicas e técnicas
que envolvem os PDs, em muitos casos nos falta um acúmulo técnico
que permita ao movimento transformar as suas demandas e seu projeto
político em propostas concretas em termos de legislação.
O debate dos Planos Diretores tem uma natureza que envolve dois tipos
de dimensões: a dimensão política e a dimensão
técnica. E em ambas, o processo de discussão aberto
pela Campanha não vai levar necessariamente a resultados que
beneficiem a maioria da população. Não é
por ter aberto um processo participativo, com amplos espaços
para a intervenção dos movimentos sociais, que se garante
que o resultado seja favorável às classes populares.
Em primeiro lugar porque, do ponto de vista de sua dimensão
política, a correlação de forças nas cidades
depende do grau de articulação e mobilização
dos diversos atores sociais envolvidos. E neste caso, os interesses
privados envolvidos na disputa pela apropriação do solo
urbano demonstram muitas vezes uma capacidade de intervenção
e um grau de influência sobre as prefeituras superior ao dos
movimentos sociais. E em casos como este, uma costura eficiente entre
estes setores, as prefeituras e parcelas cooptadas dos movimentos
sociais pode inclusive levar a retrocessos do ponto de vista de políticas
urbanas.
Por outro lado, do ponto de vista de sua dimensão técnica,
o debate sobre os Planos também apresenta obstáculos.
Muitas vezes a imensa lista de questões técnicas e jurídicas
que envolvem um PD servem como uma barreira que encobre os interesses
econômicos e políticos em disputa. E isso nos coloca
uma questão fundamental: a da capacidade dos movimentos sociais
em se capacitar, em apropriar do instrumental técnico que nos
permita disputar com os demais participantes do processo a partir
dos seus interesses.
Como recentemente afirmou a ex-Secretária Executiva do MCidades,
Ermínia Maricato “é fundamental e pedagógico
que as lideranças populares se informem e se instruam sobre
todas as questões técnicas que envolvem um PD até
perceber quando a técnica encobre relações de
injustiça”. O setor privado, os especuladores, as prefeituras
que não tem maiores compromissos com a maioria da população,
via de regra dispõem de assessorias profissionais e qualificadas,
capazes de articular do ponto de vista técnico uma tradução
dos seus interesses próprios em termos de propostas. Os movimentos,
as lideranças populares, nem sempre.
Por isso o desafio fundamental que se coloca hoje é o de capacitar
nossas lideranças para intervir no processo. Precisamos produzir
conhecimento, articular alianças que permitam aos movimentos
dispor de um apoio técnico capaz de transformas as demandas
e interesses da população em propostas concretas em
termos de políticas urbanas. Esta capacitação,
somada à capacidade de mobilização e articulação
política, são condições necessárias
para que possamos enfrentar os desafios que se colocam, e transformar
este processo de revisão dos PDs em um real avanço em
termos de políticas urbanas no país.
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Diretor da USINA – Instituto de Políticas Públicas e
Gestão Local de Porto Alegre (RS)
** Diretor de Comunicação da CONAM
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